No ontem e no hoje.
Novembro 19th, 2009Uma criancinha pequena, com o coração e os desejos de um adulto.
Com todos os defeitos do mundo, com poucas qualidades, com muitas máscaras.
Aquele que não vê o futuro.
Imagina que hoje é o hoje, e o amanhã é escuro e assustador. Uma postura tão firme e intimidadora que engana fácil.
Um mentiroso de se mesmo.
Sua estrada é mais dura que se possa imaginar.
Sua face lisa já esconde muitos segredos e feridas estrategicamente escondidas…
Seu sangue pode ser um veneno mortal.
Suas palavras são doces, calmas e aconchegantes, porém, entorpecedoras, viciosas, assim como seu sangue; venenosas.
Tantas vezes ele correu por aí… Sem medo. Apenas foi… Não tinha mão para segurar caso caísse, mas tinha pernas para seguir.
Não tinha medo. Não tinha pressa, era sábio e destemido. Nunca perdera uma batalha… Nunca.
As pedras eram pontiagudas, mas seus pés eram de titânio… Onde ele estava indo?
Sua sabedoria já sabia sobre os cantos escuros da vida e das gaiolas que o esperava por aí, em uma dessas estradas.
E ele sabia.
Um dia ele achou uma flor, ela estava fechada, parecia tão atraente, mesmo fechada ela o chamava, pra perto, mais perto, como se tudo nela fosse belo, não havia espinhos, mas sua sabedoria tivera de deixar bem claro que mesmo sem os espinhos ela poderia machucar se aberta. E ele sabia. E mesmo sabendo ele a tocou. Que perfeito. Imaginou porque, se tão maravilhoso era seu perfume, porque não a tinha tocado antes.
Continuou andando, a estrada continuava lá, esperando para ser seguida.
Um dia acordou e pensou que era um deus, forte e invencível, porque não? Ele tinha quase tudo, e, o que faltava não era importante, não tão importante quanto o que ele já tinha.
Então, resolveu se testar. Ate aonde iria? Quais os limites da sua força?
Depois do feito vieram os resultados.
Percebeu o peso do seu corpo.
Provou o veneno das suas palavras.
Bebeu do seu sangue.
Um dia cinza, o dia em que as nuvens choravam, e escondiam o azul do céu e o brilho do sol, ele viu a flor abrir.
Ela era vermelha, e em seu caule realmente não haviam espinhos, mas suas pétalas vermelhas eram cobertas de pontiagudos e afiados acúleos.
Antes que pudesse fazer perguntas, aquela pergunta, a primeira de muitas que estariam por vir, ele já sentira a primeira picada. A flor já estava em suas mãos. O seu vermelho agora se misturava ao vermelho do seu sangue.
Ele correu, e correu, suas pernas doíam, mas, ele já não as sentia. Seus pés agora eram de carne e osso, e seu rasto era vermelho por conta das pedras pontiagudas do caminho.
As pessoas não o notava mais.
O muro caiu.
Teve pesadelo, e, ate hoje não acordou. Sua realidade agora era um sonho tenebroso.
Perdeu sua armadura, e agora ele era apenas um humano, um menino desprotegido e sedento.
Reviveu, reviveu e reviveu o seu passado, mas não conseguiu encontrar aonde ele tinha saído da sua linda e maravilhosa estrada. Foi a flor? Não. Descobriu que o vilão era, na verdade, ele, ele mesmo. Ele não era feliz sendo “feliz”. Nunca se contentara com aquilo, sua máscara caiu.
E deixou aparecer o rasto das lágrimas que caiam escondidas.
Quem mais o poderia salvar? Ninguém, No seu mundo não existem deuses ou orações. Não existe futuro ou regras, existem apenas espelhos, seus reflexos, que, ao olhar para ele, retratava uma parte do passado, quando andava na sua perfeita estrada.
Agora ele sabe, sabe onde está e porque está aqui, porque escreve tanto, porque ainda tenta encontrar o caminho de volta para sua estrada. Mas não sabe onde ele está, talvez nem exista mais.
A incerteza é a sua companheira.
Ora, isso aqui não é triste, estou falando de um ser que se achava perfeito, mas que encontrou a maldade do mundo.
Hoje ele cultiva essa flor, que hoje tem a cor cinza, assim como aquele dia em que ele deixou sua inocência cair.
Como devo chamar esse garoto? Não sei, ele nem ao menos sabe quem é.
Todos os seus dias cinza são iguais, e hoje os espelhos já não mostram seu passado e sim seu presente.
Não consegue olhar muito e nem fixamente para o seu reflexo, não há máscaras no reflexo.
Seu reflexo chora.
É triste e severo.
Seu reflexo é o que ele foi um dia, só que parece ate está doente, frágil e debilitado.
Maldita flor? Talvez.
E assim ele vai, no seu cinza, com sua flor e com os seus espelhos. Ele vai, já não sente as pedras entrarem na sua carne, Já está dormente.
Ele apenas vai, andando sem rumo e sem saber onde e como parar [...] Apenas seguir, isso deverá ser o suficiente.
Ir.
Osvaldo Miranda.
